terça-feira, 17 de março de 2009

PESQUISA E AGRICULTURA FAMILIAR: CONTRIBUIÇÃO PARA O DEBATE

Dalva Maria da Mota
Doutora em Sociologia; Embrapa Amazônia Oriental. Bolsista de produtividade do CNPq.
E-mail: dalva@cpatu.embrapa.br

Heribert Schmitz
Doutor em Ciências Agrárias, Professor de Sociologia/UFPA. Bolsista de produtividade do
CNPq. E-mail: heri@amazon.com.br

Minelvina Nascimento Freitas
Mestre em Planejamento do Desenvolvimento, Superintendência de Pesquisa e
Desenvolvimento-Embrapa/Sede. E-mail: minelvina.freitas@embrapa.br


Artigo publicado na revista Raízes (Vol. 26, Nºs 1 e 2, jan.–dez./2007)

Leiam em http://www.ufcg.edu.br/~raizes/artigos/Artigo_196.pdf

segunda-feira, 16 de março de 2009

ANÁLISE TÉCNICA E ECONÔMICA DE SISTEMAS AGROFLORESTAIS EM MACHADINHO D’OESTE, RONDÔNIA

Tese apresentada à Universidade Federal de Viçosa, como parte das exi-gências do Programa de Pós-Graduação em Ciência Florestal, para obtenção do título de Doctor Scientiae.

Disponível em http://www.ipef.br/servicos/teses/arquivos/gama,mmb.pdf. Acessado em 17-02-2009

SISTEMAS AGROFLORESTAIS E A CONSERVAÇÃO DO SOLO

Artigo de autoria de:

Marilia Locatelli
Engenheira Florestal, Pesquisadora da Embrapa Rondônia, Porto Velho, Rondônia
E-mail: marilia@cpafro.embrapa.br

Abadio Hermes Vieira
Engenheiro Florestal, Pesquisador da Embrapa Rondônia, Porto Velho, Rondônia
E-mail: abadio@cpafro.embrapa.br

Rafael de Souza Macedo
Estagiário

Disponível em: http://www.agrosoft.org.br/agropag/19047.htm. Acessado em 17-03-2009

quarta-feira, 11 de março de 2009

MULHERES PREMIADAS - NOSSA QUERIDA YEDA É UMA DELAS

A Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), como maneira de comemorar o 8 de março - Dia Internacional da Mulher, instituiu neste ano o Troféu Mulheres de Ciência "Glaci Zancan".

O objetivo é enaltecer e valorizar as cientistas e educadoras que contribuíram para o avanço da ciência e da tecnologia paranaenses e participaram do processo de estruturação e consolidação das Instituições de Ensino e de Pesquisa Paranaenses. Além disso, o troféu homenageia as gestoras públicas que colaboram com a sociedade paranaense nas diferentes áreas de atuação do Estado.

Na categoria "Cientistas e educadoras", 27 educadoras e pesquisadoras receberão o troféu. Elas foram indicadas pelas instituições de ensino e de pesquisa paranaenses, públicas e privadas, com tradição na área do ensino e da pesquisa científica e tecnológica. Já na categoria "Gestoras Públicas", cinco secretárias de Estado receberão a homenagem.

O Troféu Mulheres de Ciência Glaci Zancan ainda é uma demonstração de admiração e respeito à pesquisadora que foi Glaci Zancan, pelo conjunto de sua obra e pela sua árdua batalha para criar e consolidar o Fundo Paraná de Apoio à Ciência e Tecnologia, hoje em pleno funcionamento e administrado pela Seti. Além de contribuir para o avanço da pesquisa nacional como cientista e como liderança acadêmica respeitada, Glaci defendeu a importância da ciência para o desenvolvimento sócio-econômico do país.

De acordo com a secretária de estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, a instituição desse prêmio tem um valor simbólico. Segundo ela, essa é uma data especial para que a sociedade paranaense e a Seti expressem seus agradecimentos a estas cidadãs, cientistas e educadoras que dedicaram suas vidas à ciência, à valorização das instituições de ensino e pesquisa paranaenses e às missões do serviço público.

A entrega do Troféu Mulheres de Ciência Glaci Zancan será realizada em um jantar no dia 9 de março (segunda-feira), às 19 horas, no salão Divina Providência, em Curitiba.

Além dessa premiação, para comemorar o Dia Internacional da Mulher, a Seti está organizando em parceria com a TV Paraná Educativa a gravação do programa "Roda de Conversa", a ser transmitido pela emissora no dia 8 (domingo), e uma mostra fotográfica itinerante, que apresentará imagens de mulheres que participam ou são beneficiadas por projetos mantidos pela Seti.

A mostra é resultado do trabalho dos fotógrafos Celso Pacheco, Joka Madruga e Leandro Taques, e será exibida pela primeira vez no jantar de entrega do Troféu Mulheres de Ciência Glaci Zancan.

Saiba quem serão as homenageadas com o "Troféu Mulheres de Ciência Glaci Zancan":

Categoria Cientistas e Educadoras

- Urora Luzia Pedroso (Instituto de Tecnologia do Paraná – Tecpar)

- Chisato Oka Fiori (Minerais do Paraná – Mineropar)

- Clotilde Espínola Leinig (Faculdade de Artes do Paraná – FAP)

- Cristiane Faccio Gomes (Centro Universitário de Maringá – Cesumar)

- Dirce Bortotti Salvadori (Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão - Fecilcam)

- Edelzina Ribas Coutinho (Universidade Tecnológica Federal do Paraná- UTFPR)

- Futin Buffara Antunes (Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá - Fafipar)

- Hiudéa Tempesta Rodrigues Boberg (Universidade Estadual do Norte do Paraná - Uenp)

- Ingrid Müller (Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento - Lactec)

- Laís Moreira Amarante (Instituto Federal do Paraná - IFPR)

- Léa Resende Archanjo (Universidade Positivo - UP)

- Lenita Jacob Oliveira - Homenagem Póstuma (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa-Soja)

- Leni Trentim Gaspari (Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória- Fafiuv)

- Lucila Akiko Nagashima (Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí - Fafipa)

- Maria Benigna Martinelli de Oliveira - Homenagem Póstuma (Universidade Federal do Paraná - UFPR)

- Maria de Lourdes Urban Kleinke (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social - Ipardes)

- Maria Lúcia Prado Sabatella (Escola de Música e Belas Artes do Paraná - Embap)

- Maria Natália Ferreira Gomes Thimóteo (Universidade Estadual do Centro-Oeste - Unicentro)

- Maria Suely Pagliarini (Universidade Estadual de Maringá - UEM)

- Marie Yamamoto Reghin (Universidade Estadual de Ponta Grossa - UEPG)

- Marilda Aparecida Behrens (Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC-PR)

- Tereza Canhadas Bertan - Homenagem Póstuma (Centro Universitário Filadélfia - Unifil)

- Vania Moda-Cirino (Instituto Agronômico do Paraná - Iapar)

- Yeda Maria Malheiros de Oliveira (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa-Florestas)

- Ymiracy Nascimento de Souza Polak (Universidade Norte do Paraná - Unopar)

- Yonissa Marmitt Wadi (Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste)

- Yoshiya Nakagawara Ferreira (Universidade Estadual de Londrina - UEL)

Categoria Gestoras Públicas

- Maria Marta Renner Weber Lunardon (Secretaria de Estado da Administração e da Previdência - SEAP)

- Maristela Quarenghi de Mello e Silva (Secretaria Especial de Governo)

- Thelma Alves de Oliveira (Secretaria de Estado da Criança e da Juventude - SECJ)

- Vera Maria Haj Mussi Augusto (Secretaria de Estado da Cultura - SEEC)

- Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde (Secretaria de Estado da Educação - SEED)
(Assessoria de Comunicação da Secti/PR)

segunda-feira, 9 de março de 2009

DECLARAÇÃO DA ASSEMBLÉIA DE MULHERES NO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL DE 2009

No ano em que o FSM encontra-se com a população da Pan-Amazônia, nós mulheres de diferentes partes do mundo, reunidas em Belém, afirmamos a contribuição das mulheres indígenas e das mulheres de todos os povos da floresta como sujeito político que vem enriquecer o feminismo a partir da diversidade cultural de nossas sociedades e conosco fortalecer a luta feminista contra o sistema patriarcal capitalista globalizado.

O mundo hoje assiste a crises que expõem a inviabilidade deste sistema. As crises financeiras, alimentar, climática e energética não são fenômenos isolados, mas representam uma mesma crise do modelo, movida pela superexploração o do trabalho e da natureza e pela especulação e financeirização o da economia.

Frente a estas crises não nos interessam as respostas paliativas e baseadas ainda na lógica do mercado. Isto somente pode levar a uma sobrevida do mesmo sistema. Precisamos avançar na construção de alternativas. Para a crise climática e energética, negamos a solução por meio dos agrocombustíveis e do mercado de créditos de carbono. Nós, mulheres feministas, propomos a mudança no modelo de produção e consumo.

Para a crise alimentar, afirmamos que os transgênicos não representam uma solução. Nossa proposta é a soberania alimentar e a produção agroecológica.

Frente à crise financeira e econômica, somos contra os milhões retirados dos fundos públicos para salvar bancos e empresas. Nós mulheres feministas reivindicamos proteção ao trabalho e direito à renda digna.

Não podemos aceitar que as tentativas de manutenção desse sistema sejam feitas à custa de nós mulheres. As demissões em massa, o corte de gastos públicos nas áreas sociais e a reafirmação desse modelo produtivo afeta diretamente nossas vidas à medida que aumenta o trabalho de reprodução e de sustentabilidade da vida.

Para impor seu domínio no mundo, o sistema recorre à militarização e ao armamentismo; inventa confrontações genocidas que fazem das mulheres botim de guerra e sujeitam seus corpos à violência sexual como arma de guerra contra as mulheres no conflito armado. Expulsa populações e as obriga a viver como refugiadas políticas; deixa na impunidade a violência contra as mulheres, o feminicídio e outros crimes contra a humanidade, que se sucedem cotidianamente nos contextos de conflitos armados.

Nós feministas propomos transformações profundas e radicais das relações entre os seres humanos e com a natureza, o fim da lesbofobia, do patriarcado heteronormativo e racista. Exigimos o fim do controle sobre nossos corpos e sexualidade.

Reivindicamos o direito a decidir com liberdade sobre nossas vidas e territórios que habitamos. Queremos que a reprodução da sociedade não se faça a partir da superexploração o das mulheres.

No encontro das nossas forças, nós nos solidarizamos com as mulheres das regiões de conflitos armados e de guerra. Juntamos nossas vozes às das companheiras do Haiti e rechaçamos a violência praticada pelas forças militares de ocupação. Nossa solidariedade às colombianas, congolesas e tantas outras que resistem cotidianamente à violência de grupos militares e das milícias envolvidas nos conflitos em seus países. Expressamos nossa solidariedade com as iraquianas que enfrentam a violência da ocupação militar norte-americana.

Nesse momento em especial, nós nos solidarizamos com as mulheres palestinas que estão na Faixa de Gaza, sob ataque militar de Israel. E nos somamos a todas que lutam pelo fim da guerra no Oriente Médio.

Na paz e na guerra nos solidarizamos às mulheres vitimas de violência patriarcal e racista contra mulheres negras e jovens.

De igual maneira, manifestamos nosso apoio e solidariedade a cada uma das companheiras que estão em lutas de resistência contra as barragens, as madeireiras, mineradoras e os mega-projetos na Amazônia e outras partes do mundo, e que estão sendo perseguidas por sua oposição legítima à exploração. Nos somamos às lutas pelo direito à água.

Nos solidarizamos a todas as mulheres criminalizadas pela prática do aborto ou por defenderem este direito. Nós reforçamos nosso compromisso e convergimos nossas ações para resistir à ofensiva fundamentalista e conservadora, e garantir que todas as mulheres que precisem tenham direito ao aborto legal e seguro.

Nos somamos às lutas por acessibilidade para as mulheres com deficiência e pelo direito de ir e vir e permanecer das mulheres migrantes.

Por nós e por todas estas, seguiremos comprometidas com a construção do movimento feminista como uma força política contra-hegemônica e um instrumento das mulheres para alcançar a transformação de suas vidas e de nossas sociedades, apoiando e fortalecendo a auto-organização das mulheres, o diálogo e articulação das lutas dos movimentos sociais.

Estaremos todas, em todo o mundo, no próximo 8 de março e na Semana de Ação Global 2010, confrontando o sistema patriarcal e capitalista que nos oprime e explora. Nas ruas e em nossas casas, nas florestas e nos campos, no prosseguir de nossas lutas e no cotidiano de nossas vidas, manteremos nossa rebeldia e mobilização.

Belém, 1 de fevereiro de 200

Disponível em http://blogosocialportugues.blogspot.com/2009/02/fsm-2009-declaracao-da-assembleia-de.html. Acessado em 10-03-2009

quinta-feira, 5 de março de 2009

Marina Silva - Os desafios da gestão das florestas naturais

Leia o artigo em:

http://www.revistaopinioes.com.br/cp/materia.php?id=273

Marina Silva - Mudando o perfil da silvicultura

http://www.revistaopinioes.com.br/cp/materia.php?id=461

Maria José Brito Zakia - A questão por trás da pergunta se Eucalipto seca o solo

Leia o artigo em:

http://www.revistaopinioes.com.br/cp/materia.php?id=481

Maira Giannico - A questão da sustentabilidade, perspectiva e desafios

Leia o artigo em:
http://www.revistaopinioes.com.br/cp/materia.php?id=457

Beatriz Vera Pozzi Redko - Desenvolvimento com um olhar crítico no mercado global

Nov 2005-Fev 2006

Desenvolvimento com um olhar crítico no mercado global
Beatriz Vera Pozzi Redko
Consultora Especialista em Celulose e Papel

002-10

O negócio da indústria de celulose e papel é plantação de árvores, criação de empregos, diminuição do efeito estufa e preservação do meio ambiente. Sua imagem está distorcida no Brasil, resultando em pouco suporte público para o setor. A indústria de celulose e papel deve mostrar sua realidade.

Árvores em crescimento precisam absorver gás carbônico para poder crescer. Em troca, liberam oxigênio. O efeito estufa é diminuído. Fábricas de celulose e papel são consideradas poluidoras, por definição. O odor que as fábricas exalam contribui para a poluição, mas é menos perigoso do que se pensa. Fábricas de álcool têm odor também.

Monoculturas florestais sofrem restrições de todo o tipo: criam poucos empregos, mesmo em grandes áreas, pois a árvore cresce sozinha e a mão de obra só é necessária no plantio e na colheita; a flora e a fauna local são prejudicadas; e o solo pode tornar-se seco. O público precisa saber que as grandes florestas homogêneas mudaram no Brasil: são agora núcleos cercados de vegetação nativa.

Bem manejadas, preservam o solo. Todas as empresas usam árvores plantadas por pequenos proprietários florestais. Todas plantam muito mais árvores do que derrubam.

Atitudes equivocadas limitam a aceitação ao crescimento desta indústria. Para modificar esta atitude, mais informação deve ser fornecida, especialmente para a população mais jovem, antes que os seus conceitos cristalizem-se.

O fascínio brasileiro para ser vencedor, no futebol, na agricultura, na pecuária pode ser aproveitado, buscando mais espaço na mídia para propaganda positiva da indústria de celulose e papel, um empreendimento vencedor no Brasil. Jornais e programas mais populares da TV raramente citam os benefícios sociais e ambientais que a indústria de celulose e papel proporciona.

Plantar árvores para produzir celulose deve ser considerado como atividade agrícola de representativo benefício rural.

Grandes pastagens e plantações homogêneas de cana de açúcar, de algodão, de milho, de café, de laranjas ou de soja encontram todo o apoio. Os brasileiros precisam apaixonar-se por celulose e papel.

O Brasil apresenta problemas peculiares, que diminuem a sua competitividade e sua capacidade de atrair mais recursos para a indústria: falta de investimento em educação, infra-estrutura, saúde e segurança; alta carga tributária; juros elevados; moeda supervalorizada. Sem citar a nebulosidade política e econômica dos dias atuais. Ainda assim o Brasil é considerado o melhor país emergente para investimentos.

Será uma questão de insistência do setor com o governo, objetivando minimizar os entraves logísticos e burocráticos para continuar o crescimento. O setor tem atuado ativamente neste sentido, mas falta muito trabalho visando a melhoria da própria imagem.

O governo pode ajudar adequando a infra-estrutura, desonerando os investimentos estrangeiros e apoiando os projetos silvo-agro-pastoris com empréstimos, junto ao Banco Mundial. O Brasil tem pagado as suas dívidas. Um crédito para o desenvolvimento de sua população é necessário, importante e merecido.

Fazendas com silvicultura conjugada, como as discutidas no projeto Floram, são mais compatíveis com os anseios da população e atrativas para investimentos estrangeiros. A conjugação desses projetos com a regeneração da Mata Atlântica é particularmente interessante como benefício agregado. Mais pessoas estarão empregadas.

Nas regiões onde já existe uma fábrica montada, pode-se contar com a logística para transporte e a tecnologia para a produção de mudas. O suprimento de parte das necessidades da fábrica, por meio de árvores produzidas nos assentamentos silvo-agrícolas-pastoris próximos, terá custo similar ao de uma plantação homogênea e ainda melhorará muito a imagem do empreendimento frente as populações locais, as agências certificadoras e os clientes.

Uma melhor educação de base é necessária. Um agricultor com informação é mais eficiente e poderá ter resultados melhores. Indispensável será um investimento pesado em tecnologia e gerenciamento rural.

Grandes plantações, já instaladas em várias partes do mundo, competem para o investimento disponível. A China, Índia, Rússia, Japão e Indonésia têm muito mais florestas plantadas que o Brasil. A Tailândia, o Chile, a Austrália e a Nova Zelândia possuem plantações de crescimento rápido, comparáveis em área com as do Brasil. No Uruguai estão sendo instaladas duas fábricas de celulose neste ano. A Argentina pretende aumentar sua produção.

O crescimento mundial projetado para o setor, quatro por cento ao ano até 2.020, é limitado. Se forem feitos investimentos importantes em outras partes do mundo em desenvolvimento, haverá uma sobre-capacidade de produção e diminuição de preços.

O Brasil deve desenvolver a sua indústria de celulose e papel com um olhar crítico para o mercado global. A China está investindo fortemente em plantações e em equipamentos novos e frustrará expectativas.

Os preços baixarão. É mais interessante para o Brasil diminuir as próprias desigualdades, implantar mais máquinas para papel aqui e colocar mais pessoas na própria cadeia produtiva. Focar o próprio desenvolvimento.

O brasileiro tem vocação consumista, veja, por exemplo, os lucros dos bancos. Mais oportunidades de ganho na cadeia produtiva de celulose e papel alavancarão o progresso de muitas regiões e a demanda interna. A igualdade de todos estará mais próxima.

Priscila Moraes Filleti - Um caso de sucesso

Jun-Ago 2006

Um caso de sucesso
Priscila Moraes Filleti
Produtora Rural fomentada pela VCP

004-17

Farmacêutica e Administradora de Empresas de formação, entrei no mundo do agrobusiness em meados de 2001. Eu e meu marido tínhamos uma propriedade razoavelmente grande no distrito de Joanópolis. A fazenda tinha algumas cabeças de gado, búfalos e carneiros, mas nenhuma atividade agropecuária específica.

Foi numa conversa com um amigo agronômo, que surgiu a dica sobre florestas plantadas e a apresentação ao Nelson Barbosa Leite, naquela época, Presidente da Sociedade Brasileira de Silvicultura, SBS.

Num bate-papo com o Nelson, tive a minha primeira aula sobre Florestas. Até hoje me lembro de todo o empenho para freqüentar e entender inúmeros cursos e seminários relacionados à área. Uma verdadeira corrida atrás de conhecimento, contatos e experiência.

Estimulantes e inspira-dores foram os cursos sobre Legislação Ambiental com a Zezé, sobre mudas e viveiros com o pessoal da Embrapa Floresta, e outros no IPEF, coordenado pelo Prof. José Otávio Brito, acerca de carvão vegetal e outros produtos florestais.

O projeto piloto de plantio de mudas clonadas da espécie Eucaliptus urograndis foi feito em Dezembro de 2002. O talhão plantado era de aproximadamente 10.000 mudas. Tudo saiu dentro do planejado e minha maior preocupação eram as formigas, ou melhor, a capacitação e o comprometimento dos meus funcionários no combate às formigas.

No ano seguinte, o desafio triplicou, aliás, ficou 10 vezes mais trabalhoso. Plantamos 100 mil mudas clonadas, doadas pela VCP, dentro do projeto de fomento, junto com a Casa de Agricultura. O investimento necessário era alto e aproveitamos a disponibilização de um financiamento feito pelo BNDES para pequenos e médios agricultores, em prol do cultivo de Florestas Plantadas, em agosto de 2002.

O teto do financiamento era de 150 mil reais, juros de 8,75% aa, e carência de 7 anos, quando a quitação total era feita após o primeiro corte. Foi inacreditável o nível de dificuldade e exigência para apresentação do projeto para a análise do BNDES. Os bancos desconheciam este financiamento e não tinham idéia da documentação necessária para analisar a pertinência e viabilidade do pedido.

Ao todo, foram 360 dias de peregrinação, do lançamento do crédito, até sua aprovação. Acredito que a principal frustração foi a contratação de uma consultoria, especializada em elaboração de projetos de financiamento, porque foi a única maneira do Banco do Brasil aceitar ser o meu agente financeiro no Propflora.

E logo na apresentação do projeto, feita em conjunto com esta consultoria, o Banco do Brasil simplesmente avisou que não iria executar o financiamento, em razão do mesmo não ser interessante. Um banco público, que se vangloria de trabalhar com financiamentos rurais, fazer uma afirmação como esta, foi lastimável!

Passado o capítulo da obtenção de recursos para o plantio, entrou-se na parte do próprio plantio, que se mostrou como a parte mais profissionalizada de todo o processo.

A VCP fornecia-nos a cartilha sobre tudo que se referisse a plantio, espaçamento, adubação, restrições ambientais, produtividade esperada, equipamentos de segurança necessários, custo da mão-de-obra e homem-hora, além de disponibilizar as mudas e um serviço de assistência técnica in loco, através de parceria com as Casas de Agricultura.

O único problema em relação ao plantio, desde então, tem sido a discrepância entre a área medida em levantamento planialtimétrico e o número de mudas plantadas. Por exemplo, o número de mudas num espaçamento de 2 x 3 metros é de 1.667, certo? Depende. O manual da Votorantim, dado ao produtor e acima descrito, mostra que a expectativa de plantio em áreas inclinadas é de 1.875 mudas por hectare.

Na nossa fazenda, onde sinuosidades e declives fazem parte da paisagem, existem áreas em que a produtividade por hectare atinge 2.300 mudas. Isto mesmo, o pessoal consegue plantar 40% mais de mudas, respeitando fielmente o espaçamento de 2x3. E é neste momento que o produtor se sente desamparado pela falta de informação disponível para explicar se este rendimento é bom ou ruim no desenvolvimento da floresta plantada.

No entanto, o grande e principal problema é no momento do corte: a falta de mão-de-obra especializada neste segmento do mercado de florestas plantadas é impressionante e aterrorizador. Já foram várias experiências desagradáveis nos diversos tipos de contrato de venda: venda em pé, mato fechado, venda por saída de caminhão, pagamento antecipado, cláusulas de multa e rescisão de contrato, entre outros.

No início da prospecção de prestadores de serviços para a colheita, sempre tem acontecido o mesmo: promessas de um excelente serviço, com prazo de entrega e qualquer outro item que se queira colocar no contrato. Mas, logo que assinado o termo de compromisso começam todos os problemas, as desculpas, e ficam nítidas as faltas de profissionalização e de compromisso, chegando, na maioria das vezes, à ruptura da relação de confiança mútua.

Com certeza, num futuro próximo, haverá uma mobilização entre produtores, indústrias de papel e celulose e os próprios prestadores de serviço, no intuito de se otimizar esta fase do processo de colheita de florestas.

Na silvicultura, há também boas notícias, como o lançamento do seguro florestal. Finalmente, os produtores podem contar com um seguro para suas florestas plantadas, contra fogo, geadas e ventos, por um valor razoável, de aproximadamente 0,5% do valor da floresta, por a

Adriana de Carvalho Barbosa Ramos - A pedra no caminho

Set-Nov 2006

A pedra no caminho
Adriana de Carvalho Barbosa Ramos
Membro do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental

005-28

Como dizia o grande poeta Carlos Drummond de Andrade: “tinha uma pedra no meio do caminho”. No caminho do desenvolvimento do setor de papel e celulose no Brasil, tinha a Mata Atlântica e seus habitantes.

E no caminho daquelas comunidades quilombolas, de pescadores, agricultores familiares e povos indígenas, que ali viviam, tinha as empresas, visando ampliar suas áreas de atuação e produção. Percorrer este caminho não foi, portanto, um processo pacífico.

Consolidando-se como um setor altamente produtivo e de tecnologia de ponta, numa época em que preocupações sociais e ambientais não faziam parte das prioridades nacionais, nem dos governos e nem das empresas, o setor de florestas plantadas cresceu, deixando para trás um passivo social e ambiental indiscutível.

Segundo o documento Temas Conflituosos Relacionados à Expansão da Base Florestal Plantada e Definição de Estratégias para Minimização dos Conflitos Identificados, elaborado para o Programa Nacional de Florestas, do Ministério do Meio Ambiente, em 2005, os conflitos socioambientais, identificados em áreas de plantações florestais, enquadram-se, basicamente, em quatro tipos: fundiários, trabalhistas, ambientais e socioambientais; e envolvem problemas que vão desde descumprimento da legislação, até desmatamentos, passando pela poluição e a extinção de espécies, até a violência moral e física contra segmentos da sociedade, que se interpuseram ao modelo de desenvolvimento, protagonizado pelo setor de papel de celulose.

Chama a atenção nos resultados desse levantamento, a generalização dos conflitos, por todas as regiões do país onde a atividade está instalada. No mapeamento, é possível identificar claramente que não se tratam apenas de conflitos passados. Muitos são casos atuais e ainda há perspectivas de conflitos futuros. Outro aspecto relevante é a dificuldade de algumas empresas ou representações setoriais reconhecerem os problemas.

Evidentemente, boa parte dos conflitos causados pelas atividades florestais não diferem muito daqueles comumente identificados em outras áreas de expansão de monoculturas, em especial aquelas voltadas à exportação em geral.

A concentração de terra, a demanda por mão-de-obra altamente qualificada e a prioridade do atendimento ao mercado internacional são características comuns a esses modelos produtivos, que podem até gerar impactos positivos imediatos no superávit primário, mas que ainda não demonstraram capacidade de promover a distribuição de renda, de modo a atender aos interesses do povo brasileiro como um todo.

Essa dificuldade estrutural do modelo econômico, contudo, não deve servir de justificativa para a banalização dos casos específicos relacionados às plantações florestais.

Ao contrário, esse quadro geral deve servir de estímulo para que o setor busque distinguir sua atuação, potencializando suas qualidades e deixando definitivamente para o passado as práticas e atitudes inadequadas. No século 21, já não basta gerar lucro e contribuir com o PIB nacional.

As empresas precisam assumir sua responsabilidade socioambiental, não só investindo em marketing, mas antes cumprindo e honrando seus compromissos no dia-a-dia. Não basta parecer correto. É preciso real empenho para promover a sustentabilidade socioambiental e, desse modo, conquistar o reconhecimento de todos os atores sociais envolvidos.

É necessário, pois, tal como um paciente crônico, reconhecer as deficiências existentes e os equívocos já cometidos, e enfrentá-los com passos concretos, na direção do equacionamento dos problemas e da superação dos conflitos.

Em alguns casos, isso significa ajudar a recuperar e proteger os recursos hídricos, a fauna e a flora ameaçadas de extinção, e reconhecer os direitos territoriais e de acesso aos recursos naturais de povos indígenas, quilombolas, pescadores e outras comunidades rurais, além de não interferir no modo tradicional de vida destas comunidades. Implica enfrentar as questões trabalhistas e assumir a responsabilidade sobre os serviços terceirizados.

Além disso, importa desenvolver ações que assegurem maior sustentabilidade ao sistema de fomento florestal em pequenas propriedades, incorporando a perspectiva do planejamento da paisagem e da diversificação da produção - a exemplo do que vem sendo feito no Programa Matas Legais, parceria da Klabin com a Associação de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí, APRE-MAVI.

Do mesmo modo, o estabelecimento de iniciativas, que contribuam para proteger os remanescentes de Mata Atlântica, e o compromisso de não causar degradação de áreas naturais em outros biomas, como o Pampa e o Cerrado, além do cuidado com as espécies invasoras também são necessários.

É preciso também que o governo cumpra seu papel de guardião do interesse público, buscando estabelecer mecanismos para mediar os conflitos, encontrar soluções adequadas e criar políticas públicas que promovam a recuperação desse passivo socioambiental e incentivem ações que fortaleçam nossas diversidades biológica, cultural e agroecológica.

Ao invés de serem consideradas como um ônus, essas ações devem constituir uma agenda positiva, que confira reconhecimento e prestígio ao setor, alterando substancialmente o quadro de conflitos e tornando exceção aquilo que ainda hoje, lamentavelmente, tem sido a regra.

Essas são condições fundamentais para que possamos considerar as florestas plantadas benéficas ao país, em todos os aspectos.

Maria Dalce Ricas - Se social e ambientalmente responsável, a Floresta Plantada é uma aliada na preservação da Floresta Nativa

Set-Nov 2006

Se social e ambientalmente responsável, a Floresta Plantada é uma aliada na preservação da Floresta Nativa
Maria Dalce Ricas
Superintendente Executiva da Amda

005-27

A implantação de florestas homogêneas para a produção de madeira tem gerado grande polêmica no Brasil e no mundo. Como ambientalista preocupada com a harmonização entre a produção econômica e a proteção dos ambientes naturais, penso que esta atividade deve ser encarada como outra qualquer, que se desenvolvida de acordo com a lei e com as normas técnicas relacionadas aos cuidados ambientais, pode resultar na redução da pressão sobre as florestas nativas.

Para mim, utilizar madeira nativa sabendo que mais de 90% da atividade desenvolve-se de forma irregular é inconcebível: ao fazer isso, estamos sendo cúmplices da destruição da Amazônia ou do que restou da Mata Atlântica.

Recentemente, ao buscar janelas e portas de eucalipto para a construção de minha casa, tive grande dificuldade em encontrá-las. Segundo os fabricantes, ainda há falta de matéria-prima, capaz de abastecer o mercado.

Penso que o grande foco desta discussão deva ser deslocado para a forma como são feitos estes plantios. Independentemente de ser cultivo de florestas, de pastagens ou grãos, todos podem provocar impactos ambientais e sociais da maior gravidade ou serem implantados de forma cuidadosa, minimizando significativamente suas conseqüências nocivas.

Das culturas que hoje ocupam as maiores áreas no país, com exceção da soja e das florestas, as demais são quase tão antigas, quanto à colonização do território brasileiro pelos europeus e estão incorporadas à “cultura agrícola” do país e à “visão do rural” de nossa população. E das duas, o cultivo de florestas é a que menos se enquadra a esses dois ícones citados.

Além disso, as florestas homogêneas diferem fisicamente de todas as demais. Têm porte florestal, mas são muito diferentes das florestas nativas, o que resulta em impactos culturais e forte rejeição emocional.

De forma geral, quando as pessoas atravessam quilômetros e quilômetros em pastagens ou em plantações de grãos, raramente se dão conta que estão em meio a ambientes modificados pelo ser humano. No entanto, quando se trata de florestas plantadas, poucos são aqueles que não expressam estranheza, repulsa ou indignação.

Menos ainda são aqueles que percebem os danos ambientais causados pelas monoculturas, como a grande quantidade de solo e agrotóxicos carreados aos cursos d´água e a destruição da biodiversidade.

E comparando os danos provocados pelas diversas culturas, com aqueles ocasionados pelo cultivo das florestas industriais, os impactos das últimas é ainda infinitamente menor, situação decorrente, principalmente, das extensões de áreas utilizadas.

Se consideradas pontualmente, ou seja, focando áreas específicas, as monoculturas florestais são responsáveis, sem dúvida, por grandes e graves impactos socioambientais, igualando-se a diversas outras atividades econômicas.

E essa situação deve-se, em grande parte, à omissão de órgãos, como o antigo IBDF (que antecedeu ao Ibama), que aprovava o plantio de florestas de produção, em completo desacordo com a legislação florestal da época. Do final da década de 1960 a meados da década de 1980, somente em Minas Gerais, foram mais de dois milhões de hectares de florestas homogêneas implantadas, com recursos dos incentivos fiscais para a atividade, a maior parte sem a observância das reservas legais e áreas de preservação permanente.

E, infelizmente, essa situação ainda vem se repetindo em algumas regiões de Minas, com grandes plantios contínuos e com a ocupação de veredas, topos de morros e margens de cursos d´água.

Insisto, portanto, que a discussão sobre o assunto deva ser dirigida mais à forma de produção adotada, ao invés de crucificar a atividade, de forma generalizada. Não adianta negar a realidade, por fatores apenas emocionais: a demanda e consumo de madeira para os mais diversos fins são crescentes e esse mercado vem sendo abastecido através do desmata-mento de florestas nativas.

Essas considerações, portanto, levam à conclusão de que o plantio de florestas deve ser estimulado e incentivado, com a observância rigorosa das normas ambientais, de maneira a atender ao mercado e proteger as formações florestais nativas. Cabe lembrar que a tecnologia para que isso aconteça já se encontra bem desenvolvida, sendo já utilizada por produtores de várias partes do país.

Uma das premissas básicas para o crescimento da atividade, de forma respeitosa para com o meio ambiente, ao meu ver, é a de utilização de áreas já desmatadas e improdutivas. Nesta situação, existem terras abundantes em todo o país, resultantes do modelo de avanço desordenado da ocupação territorial. E boa parte delas com altos índices de degradação ambiental.

E para concluir, penso ser fundamental refletir sobre o consumo e o desperdício, não somente de madeira, mas de produtos e matérias-primas de um modo geral.

O Brasil prima pelo mau uso de seus recursos naturais, situação que, sem dúvida, relaciona-se a uma de suas mais tristes heranças culturais: em um ambiente em que a natureza é extremamente generosa, as pessoas que se preocupam com uso racional dos recursos são ainda minoria absoluta.

E na área florestal, essa herança parece ser ainda mais evidente: é amplamente conhecido o hábito do desperdício, desde o processo de retirada da madeira na floresta, até o seu consumo nas cidades ou áreas rurais. Isso sem contar com o que é consumido pelos incêndios florestais, que anualmente destroem milhares de hectares de vegetação nativa.

Por tudo isso, não há como negar a importância da atividade de plantio de florestas industriais, desenvolvida em base social e ambientalmente responsável, de forma a se tornar aliada indispensável na preservação das florestas nativas.

Ana Cristina Nobre da Silva - Benefícios sociais da certificação florestal

Set-Nov 2006

Benefícios sociais da certificação florestal
Ana Cristina Nobre da Silva
Socióloga do Imaflora

005-20

A certificação florestal FSC é uma iniciativa internacional, mundialmente reconhecida, que busca diferenciar os produtores que utilizam técnicas ambientais e sociais adequadas na produção florestal, madeireira e não-madeireira. De maneira muito simplificada, o certificado FSC garante aos consumidores que a empresa ou comunidade certificada adota boas práticas de gestão e produção florestal.

Para assegurar a qualidade do manejo do empreendimento candidato à certificação, é realizada uma avaliação independente, que aplica os Princípios e Critérios (P&C) do FSC, um padrão que contempla aspectos econômicos, ambientais e sociais. O FSC criou P&C, que são aplicáveis mundialmente em qualquer tipo de floresta, devendo ser adaptados para regiões e sistemas de produção específicos, incluindo plantações.

Para ser certificada, a empresa precisa estar de acordo com esta norma. Isto não quer dizer que um empreendimento certificado esteja sempre 100% adequado do ponto de vista ambiental e social, entretanto, significa que ele se encontra em um patamar mínimo quanto à sua gestão social e ambiental e que entrou num processo de melhoria, que deverá ser contínuo, enquanto estiver certificado.

A manutenção do desempenho e o processo de melhoria contínua de uma empresa certificada são garantidos através de auditorias de monitora-mento, que acontecem todos os anos, a partir do momento que esta é certificada.

Do ponto de vista social, dois aspectos são fortemente avaliados na certificação florestal FSC: a conduta da empresa com os trabalhadores (próprios e terceiros) e a relação da empresa com as comunidades envolvidas, incluindo as do entorno.

Uma empresa certificada deve, obrigatoriamente: ter boas práticas no relacionamento com os funcionários próprios e terceiros; cumprir com a legislação trabalhista; respeitar os direitos fundamentais no trabalho, conforme definido pela OIT; adotar medidas de monitoramento, que garantam qualidade na saúde, segurança e higiene no local de trabalho; garantir boas condições de transporte; utilizar mecanismos de comunicação e solução de conflitos; entre outros.

Com as comunidades, a empresa deve minimizar os impactos negativos da sua atividade produtiva na vida das pessoas; deve ser uma geradora de emprego e renda para a região local; ser proativa em iniciativas de responsabilidade social, que tragam benefícios para as comunidades.

Além das garantias sociais previstas nos P&C do FSC, uma das facetas mais interessantes desta certificação é que se trata de uma ferramenta, que foi construída e que é apoiada por grandes entidades ambientalistas, sociais e do setor privado, que têm como objetivo comum a mudança nas práticas adotadas na exploração florestal.

A composição balanceada destes três setores na criação e na governança do FSC proporcionou que, ao serem criadas “as regras do jogo” do processo de certificação, fosse garantido um forte viés de controle social, através de mecanismos de transparência e participação.

Atualmente, não existe certificação FSC, sem a realização de um amplo processo de informação e de consulta pública às partes interessadas (trabalhadores próprios e terceiros, comunidades do entorno, representantes sindicais, sociedade civil organizada, poder público local, clientes, fornecedores, entre outros). Além disso, a qualquer momento, qualquer entidade ou pessoa, que tenha uma denúncia relativa às práticas econômicas, sociais e ambientais de empresas certificadas, têm garantido, dentro do processo, procedimentos que proporcionam que estas denúncias serão minuciosamente avaliadas e devidamente respondidas.

Tal como foi construída a engrenagem da certificação florestal FSC, uma série de benefícios sociais estão garantidos dentro do processo, entretanto, alguns desafios estão postos, quando a intenção é mover esta engrenagem rumo a mudanças efetivas na realidade social no setor florestal.

O primeiro deles é que as empresas certificadas estejam verdadeiramente comprometidas com as boas práticas de manejo, defendidas pelo FSC, e que estejam dispostas a, efetivamente, transformarem sua cultura empresarial e o seu jeito de fazer negócios. Empresas que visam exclusivamente os benefícios econômicos da certificação têm pouca chance de promoverem mudanças significativas na realidade de trabalhadores e comunidades.

Outro desafio é que as partes interessadas acompanhem as práticas sociais e ambientais das empresas certificadas. Atores sociais informados podem influenciar no processo de certificação. Esta participação enriquece a dinâmica de monitoramento realizado pelas entidades de certificação. Para tanto, é importante que as partes interessadas conheçam como funciona o sistema FSC, quais as oportunidades e os limites desta ferramenta.

Apesar de todas estas oportunidades, a certificação FSC não representa uma solução mágica a todos os problemas sociais e ambientais do setor florestal. A realidade do setor é muito mais complexa e envolve questões relativas a políticas públicas.

Entretanto, num cenário em que os recursos naturais estão seriamente ameaçados e que, historicamente, a condição de vida de trabalhadores rurais é marcada pela informalidade e precariedade, uma iniciativa que visa promover a responsabilidade social e ambiental de empresas do setor florestal deve ser percebida como mais um aliado na luta pela melhoria das condições da qualidade de vida e de trabalho no setor florestal no Brasil e em outros países

Giselda Durigan - Caminhos seguros para a diversidade biológica

Set-Nov 2006

Caminhos seguros para a diversidade biológica
Giselda Durigan
Pesquisadora do Instituto Florestal - Assis

005-18

Corredores biológicos têm sido apontados pelos ambientalistas, pela mídia e por parte da comunidade científica, como a melhor solução para romper o isolamento entre as miríades de fragmentos remanescentes da vegetação original, que pode levar espécies à extinção e conduzir à lenta morte dos ecossistemas.

Em todo o planeta, a fragmentação dos ecossistemas naturais é uma realidade e a busca por soluções para salvar essas ilhas de diversidades é, por conseguinte, um esforço global.

A idéia de restabelecer corredores entre fragmentos, que possibilitarão o livre trânsito de seres vivos e a necessária troca de genes, que possibilita a sobrevivência e a evolução das espécies, não é, todavia, objeto de consenso entre os cientistas.

Há riscos previsíveis. Do ponto de vista da comunidade vegetal, corredores que venham a ser restaurados em paisagem agrícola ou pecuária estarão permanentemente sujeitos aos chamados efeitos de borda, os mesmos que hoje ameaçam os fragmentos naturais.

A exposição permanente das bordas das florestas ao vento, à insolação direta, à menor umidade relativa e à entrada de espécies invasoras, interferem nos processos naturais de reprodução e no desenvolvimento das espécies nativas, de modo que a vegetação vai se distanciando da sua estrutura e composição originais.

Em sendo diferente da comunidade natural, a vegetação reconstruída em corredores pode não funcionar, efetivamente, como habitat para todas as espécies da fauna. Para aqueles animais que se dispuserem a transitar pelos corredores, os cientistas vêem uma nova ameaça: os corredores são estreitos e os animais ficariam mais expostos à caça e aos predadores naturais.

Isto vale para os animais terrestres ou aves que dispersariam sementes e até mesmo para insetos e outros agentes polinizadores. Corredores poderiam, ainda, para os mais cautelosos, funcionar como vetores de fogo e de zoonoses.

Nenhum dos problemas mencionados, porém, é uma restrição a considerar, para a eficácia dos corredores, se a matriz da paisagem for florestal. Estudos recentes demonstram que fragmentos de vegetação nativa, se inseridos em monoculturas de árvores, praticamente não sofrem efeitos de borda.

Aliás, já existem iniciativas de formação de florestas homogêneas de eucalipto ao redor de florestas nativas, com a finalidade de protegê-las, como é o caso do Projeto Abraço Verde, conduzido pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas ¾ IPÊ, no Pontal do Paranapanema.

Essa constatação faz com que a estratégia de formar corredores entre fragmentos de vegetação nativa seja especialmente recomendável em áreas de silvicultura. Regra geral, as empresas de reflorestamento têm obedecido às leis ambientais, respeitando as Áreas de Preservação Permanente, principalmente as florestas ripárias, Naturais ou restauradas. Essas florestas funcionam naturalmente, como corredores biológicos dentro de bacias hidrográficas.

As reservas legais, que devem ser mantidas ou restauradas em 20% da área de cada propriedade rural, podem potencializar a eficácia da conservação já exercida pelas Áreas de Preservação Permanente, se forem estrategicamente planejadas, buscando restabelecer a conexão entre as poucas áreas naturais remanescentes, criando uma rede entre bacias hidrográficas e, em algumas regiões ecotonais, até mesmo entre biomas distintos.

A formação de corredores em paisagens totalmente desmatadas dependerá, sempre, da existência de sementes e mudas das espécies que compunham a vegetação a restaurar e, também, do desenvolvimento de técnicas eficazes de restauração.

Para florestas, de modo geral, já existe um grande número de exemplos bem sucedidos, com plantios resultando em florestas estruturalmente bem formadas e com alta diversidade, ainda que espécies raras ou ameaçadas não estejam sendo cultivadas.

Por outro lado, restaurar outros tipos de vegetação, como o cerrado, por meio de plantio, continua sendo um obstáculo quase intransponível.

Felizmente, na maioria das regiões de cerrado, especialmente aquelas que foram utilizadas apenas para pecuária ou silvicultura, as estruturas subterrâneas das plantas (raízes, tubérculos, xilopódios) não foram totalmente destruídas, podendo, a vegetação, regenerar-se naturalmente, sem nenhuma intervenção, que não seja a eliminação das perturbações (espécies exóticas, gado, fogo, corte, etc.).

Para a recuperação da vegetação em áreas de reserva legal no Estado de São Paulo, as normas recentemente instituídas (Decreto n° 50.889, de 16 de junho de 2006) admitem até a utilização de espécies exóticas, com a função de pioneiras, mediante projeto aprovado pelo órgão licenciador.

Ainda que essa possibilidade não seja vista com bons olhos por parte dos ambientalistas, pesquisas recentes, em diferentes regiões do Brasil e em outros países tropicais, demonstram que, ao oferecer abrigo e, às vezes, alimento para a fauna, restabelecendo a deposição de matéria orgânica e a ciclagem de nutrientes, as árvores exóticas facilitam os processos naturais de regeneração das plantas nativas.

O resultado, a longo prazo, após a completa eliminação das exóticas, pode ser uma vegetação ainda mais semelhante à original do que a que se conseguiria com plantios heterogêneos de essências nativas. A eficácia dos corredores para garantir a troca de material genético entre seres vivos, isolados pela fragmentação, ainda carece de comprovação científica.

Todavia, os conhecimentos teóricos e empíricos já existentes indicam este caminho como sendo o de êxito mais provável. Mesmo que a esperada troca gênica não aconteça na proporção em que se espera, os ganhos em ampliação de habitat e melhoria da paisagem são inegáveis e, por si só, justificam a escolha desse caminho para a conservação da diversidade biológica, em paisagens fragmentadas.

Maria José Brito Zakia - Conceito de vizinhança

Set-Nov 2006

Conceito de Vizinhança
Maria José Brito Zakia
Consultora de Meio Ambiente na VCP

005-17

Se existe um conceito que mudou - e muito, nos últimos anos é o de vizinhança. O que é vizinho? E o que é vizinhança? Quando o assunto é meio ambiente, esta tal vizinhança, esta cercania, assume interessantes e desafiadores limites, vamos a eles.

Se o assunto é a propriedade, a vizinhança é representada pelos vizinhos de cerca/muro; mas, se o assunto for transporte de madeira, a vizinhança expande-se um pouquinho mais e passa a ser composta pelas comunidades por onde este transporte passa.

Se o assunto é água, a vizinhança é a bacia hidrográfica, mas, se o assunto é conservação da biodiversidade, a vizinhança é a paisagem; se o assunto é uso do solo, a vizinhança é todo um município e seu plano diretor.

A palavra chave parece ser, cada vez mais, diversidade em contraponto à segmentação e à fragmentação de idéias e ações.

Recentemente, numa palestra, Sérgio Esteves, da AMCE, disse: “Tenho ouvido muita gente e empresas falarem que estão fazendo a sua parte. Mas que parte é esta se não se conhece o todo?”.Frase simples, mas reveladora. E o que isto tem a ver com a vizinhança? Simples, a vizinhança é o todo do qual fazemos parte. Vizinhança esta que pode vir representada por vários territórios, conforme vimos acima.

Vale a pena entender um pouco do conceito de Local - na ótica do desenvolvimento local - que preconiza sair das generalidades abstratas, para realmente conhecer e considerar as peculiaridades das minorias.

Vamos a um exemplo de generalidade abstrata – “é preciso fixar o homem no campo”. Não tenho dúvidas da importância da idéia, mas, convenhamos, esta frase serve para qualquer lugar do mundo.

Vamos, agora ao local como conceito: na bacia do Ribeirão dos Macacos em Lorena, quais as ações necessárias para fixar as pessoas que vivem no campo e hoje passam por dificuldades, para lá permanecerem. Quais as entidades que podem, devem e querem se envolver?

Atenção às três palavrinhas do parágrafo anterior: Querer, poder, dever e acrescento ainda: saber. Um exemplo bom é o de recomposição de matas ciliares – é quase unânime que todos queremos a mata ciliar recomposta (generalidade abstrata), mas nem todos que querem sabem ou nem todos que querem, podem. Não querem por quê? Não podem por quê? Ora, por que cada um tem suas peculiaridades, suas dificuldades, seus interesses, seus sonhos e anseios.

Talvez o melhor para se pensar em termos de desenvolvimento local é o fato de que cada um nós pode se sentir parte de uma ação de melhoria.

Estas idéias são frutos de uma sociedade inquieta e que vem se organizando, principalmente após a Conferência Mundial do Meio Ambiental, Eco-92, que consolidou a importância da busca da sustentabilidade e preparou o caminho para a responsabilidade social, nas empresas.

Novamente, lanço mão da AMCE - Negócios sustentáveis, para esclarecer idéias: “A principal relevância do tema (sustentabilidade e responsabilidade corporativa) continua sendo a proposta de reflexão crítica sobre o papel social de indivíduos e organizações, na construção do desenvolvimento socioeconômico sustentável e do bem comum.”

Penso que, neste momento do artigo, já podemos falar de coisas práticas, citando um exemplo do resultado desta reflexão crítica. Em Capão Bonito, há uma comunidade que gostaria de trabalhar com apicultura, mas não podia (poder), pois a área com eucalipto pertencia à VCP, que nunca pensou em parceria deste tipo (querer) e já existia um produtor de mel no município (saber).

Ao juntar o querer, poder e o saber, neste ano foram produzidas cerca de 35.000 kg de mel. E é muito importante salientar que para ajudar a conciliar o saber, o querer e o poder, pensando em sustentabilidade, foi e está sendo fundamental o trabalho da ONG Ecoar Florestal.

É interessante notar como a atuação cidadã passa por várias escalas – às vezes em um bairro, por vezes apoiando políticas públicas e normatizações. Hoje, sociedade civil e empresas apóiam, junto ao, e com, o CONAMA, a criação da figura do protetor – pagador. O proprietário que conserva água, solo e biodiversidade poderia ser remunerado por estes serviços ambientais.

Evidentemente que grandes proprietários, como os do setor florestal, não poderiam e não deveriam ser beneficiários deste tipo de remuneração, pois temos que seguir o princípio do Direito Ambiental, que diz que cada um colabora com o meio ambiente, dentro de suas possibilidades. É óbvio que grandes proprietários podem - e devem, fazer mais pelo meio ambiente.

A VCP conta hoje com cerca de 65.000 ha de áreas destinadas à conservação – representada pelas áreas de preservação permanente, pela reserva legal e por outras áreas de interesse ao meio ambiente. Destes 65.000, há cerca de 8.000 que serão transformados em RPPN.

Sei que os números são grandiosos, como grande é o nosso desafio em restaurar parte destas áreas. Mas, não podemos desconsiderar que exigir este mesmo modelo para pequenos e médios proprietários seria desigual. Olha aí o conceito local – peculiaridades das minorias.

Desta forma, uma empresa responsável não pode nunca usar a dificuldade da minoria, para “facilitar” suas operações. A partir daí, participamos de projetos para a implantação da madeira em florestas de uso múltiplo e projetos de uso múltiplo de áreas rurais, sempre em parceria com proprietários rurais.

O importante, então, é saber ouvir, estar disposto a pensar diferente, a agir diferente e institucionalizar ações. Isto só é possível trabalhando em equipe, em parcerias e sabendo que todos os interesses são legítimos, todos os interesses têm um viés e é na interface de todas estes viéses que temos que trabalhar, sendo parte da solução de problemas.