quinta-feira, 5 de março de 2009

Suzana Kahn Ribeiro - Florestas e o aquecimento global: uma perspectiva do estado do Rio de Janeiro

Mar-Mai 2008

Florestas e o aquecimento global: uma perspectiva do estado do Rio de Janeiro
Suzana Kahn Ribeiro
Coordenadora de Petróleo e Gás do Programa de Pós-Graduação em Engenharia da UF-RJ

011-15

A manutenção das florestas tem um papel de destaque na discussão sobre o aquecimento global, sobretudo no Brasil. O desmatamento figura no país como a principal preocupação, no que diz respeito às emissões de gases de efeito estufa.

No caso do estado do Rio de Janeiro, a situação não é a mesma, uma vez que é a queima de combustíveis fósseis que gera a maior quantidade de gases de efeito estufa no estado, mas que não torna o desmatamento menos importante.

Ao se conceber um plano para lidar com o aquecimento global, deve-se analisar diferentes estratégias, que são complementares. De forma simplificada, pode-se apontar três linhas de atuação.

Uma referente à redução das emissões de gases de efeito estufa, outra referente ao seqüestro do carbono na atmosfera, biológico ou geológico, aumentando os sumidouros e, por fim, um plano de adaptação às mudanças climáticas, advindas do aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

O aumento, ou mesmo a manutenção da área de florestas, atende a estas três linhas de atuação. Inicialmente, quando se aumenta a cobertura florestal, seja através da redução do desmatamento, onde menos carbono é lançado na atmosfera, seja na promoção do reflorestamento, onde o estoque de carbono é aumentado, por meio do que se chama de seqüestro biológico, ocorre uma redução na concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

No que se refere à adaptação às mudanças climáticas, as florestas melhoram o micro clima das regiões, fazendo com que as temperaturas locais sejam mais amenas, reduzem erosão, mantêm a biodiversidade, protegem os recursos hídricos, enfim reduzem os impactos negativos que as mudanças climáticas poderiam provocar.

Ainda, para o caso de florestas plantadas, aumenta-se a disponibilidade de fornecimento de madeira e fibra para o consumo industrial, reduzindo, desta forma, a pressão sobre as matas nativas e fixando o carbono nos materiais.

Exatamente por conta desta importância do reflorestamento para a diminuição dos impactos do aquecimento global, muito se tem divulgado a respeito das práticas de neutralização das mais diferentes atividades, por meio de plantação de árvores.

Há que se ter muito cuidado com este tipo de mensagem, pois em primeiro lugar, neutralização pressupõe que o balanço entre o que foi emitido e o que foi plantado foi ou será neutro, ou seja, as emissões foram totalmente compensadas pela plantação de árvores, o que, na maioria das vezes, não é verdade, e em segundo lugar, para que, de fato, o reflorestamento tenha atingido o objetivo de seqüestrar o carbono emitido, é fundamental que o crescimento das mudas plantadas seja monitorado e avaliado, de forma a se saber exatamente qual a quantidade de carbono que foi absorvida.

Isto requer, pelo menos, de três a quatro anos de monitoramento.
Entretanto, não é pelo fato de que existem dificuldades e desinformação a respeito da prática do abatimento de emissões através de reflorestamento, que se deve negligenciar o seu valor. Pelo contrário, deve-se buscar que esta prática seja a mais transparente possível, de forma que não gere desconfiança, por parte daqueles que pretendem contribuir.

Uma maneira de facilitar o acompanhamento do crescimento de árvores, destinadas a resgatar o carbono da atmosfera, é especificar uma área onde se pode determinar as espécies que deverão ser plantadas e monitorar, via satélite, sistematicamente, seu crescimento.

Os objetivos de controle do seqüestro de carbono deixam esta iniciativa clara, além de permitir visibilidade às instituições envolvidas no reflorestamento.

É neste contexto que se propõe a criação de parques de carbono em áreas pré-determinadas. Sabe-se que, em média, a densidade de um hectare de terra é de 2.500 árvores. No caso de ser área de Mata Atlântica, isto significaria 400 tCO2/ha.

Como exemplo, pode-se citar o Parque Estadual da Pedra Branca no Rio de Janeiro, que apresenta uma área de 1.360 ha para ser reflorestado. Vale ressaltar que, segundo a classificação adotada pela organização Conservação Internacional, a Mata Atlântica está entre os três hotspots mais importantes do planeta.

Hotspots são regiões que possuem grande biodiversidade e elevado número de espécies endêmicas e nas quais já se perderam mais de 75% do habitat natural. O Parque do Carbono, a ser implantado no Maciço da Pedra Branca, ainda tem uma vantagem adicional, por ser em uma área que sofre uma grande pressão em termos de urbanização, que é a contenção da ocupação desordenada do solo.

Concluindo, caso o reflorestamento se dê com o intuito de ser um sumidouro de carbono, o esforço deverá, primordialmente, ser direcionado para áreas pré-determinadas e monitoradas, oferecendo também um ganho de escala, já que o reflorestamento tem um alto custo, seja na produção de mudas, no plantio ou na manutenção. Assim, o estado pode incentivar, demarcando áreas para esta finalidade, como no caso do Parque de Carbono citado.

Ressalto que as florestas têm um potencial pequeno de mitigação e não conseguirão, sozinhas, reverter o processo. Estratégias adicionais e complementares devem ser implementadas, para que se atinja o objetivo de manutenção ou ainda redução das emissões de gases de efeito estufa, tais como aumento de uso de energia renovável, programas de eficiência energética, incentivos ao transporte público, entre outras medidas.

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