quinta-feira, 5 de março de 2009

Giselda Durigan - Caminhos seguros para a diversidade biológica

Set-Nov 2006

Caminhos seguros para a diversidade biológica
Giselda Durigan
Pesquisadora do Instituto Florestal - Assis

005-18

Corredores biológicos têm sido apontados pelos ambientalistas, pela mídia e por parte da comunidade científica, como a melhor solução para romper o isolamento entre as miríades de fragmentos remanescentes da vegetação original, que pode levar espécies à extinção e conduzir à lenta morte dos ecossistemas.

Em todo o planeta, a fragmentação dos ecossistemas naturais é uma realidade e a busca por soluções para salvar essas ilhas de diversidades é, por conseguinte, um esforço global.

A idéia de restabelecer corredores entre fragmentos, que possibilitarão o livre trânsito de seres vivos e a necessária troca de genes, que possibilita a sobrevivência e a evolução das espécies, não é, todavia, objeto de consenso entre os cientistas.

Há riscos previsíveis. Do ponto de vista da comunidade vegetal, corredores que venham a ser restaurados em paisagem agrícola ou pecuária estarão permanentemente sujeitos aos chamados efeitos de borda, os mesmos que hoje ameaçam os fragmentos naturais.

A exposição permanente das bordas das florestas ao vento, à insolação direta, à menor umidade relativa e à entrada de espécies invasoras, interferem nos processos naturais de reprodução e no desenvolvimento das espécies nativas, de modo que a vegetação vai se distanciando da sua estrutura e composição originais.

Em sendo diferente da comunidade natural, a vegetação reconstruída em corredores pode não funcionar, efetivamente, como habitat para todas as espécies da fauna. Para aqueles animais que se dispuserem a transitar pelos corredores, os cientistas vêem uma nova ameaça: os corredores são estreitos e os animais ficariam mais expostos à caça e aos predadores naturais.

Isto vale para os animais terrestres ou aves que dispersariam sementes e até mesmo para insetos e outros agentes polinizadores. Corredores poderiam, ainda, para os mais cautelosos, funcionar como vetores de fogo e de zoonoses.

Nenhum dos problemas mencionados, porém, é uma restrição a considerar, para a eficácia dos corredores, se a matriz da paisagem for florestal. Estudos recentes demonstram que fragmentos de vegetação nativa, se inseridos em monoculturas de árvores, praticamente não sofrem efeitos de borda.

Aliás, já existem iniciativas de formação de florestas homogêneas de eucalipto ao redor de florestas nativas, com a finalidade de protegê-las, como é o caso do Projeto Abraço Verde, conduzido pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas ¾ IPÊ, no Pontal do Paranapanema.

Essa constatação faz com que a estratégia de formar corredores entre fragmentos de vegetação nativa seja especialmente recomendável em áreas de silvicultura. Regra geral, as empresas de reflorestamento têm obedecido às leis ambientais, respeitando as Áreas de Preservação Permanente, principalmente as florestas ripárias, Naturais ou restauradas. Essas florestas funcionam naturalmente, como corredores biológicos dentro de bacias hidrográficas.

As reservas legais, que devem ser mantidas ou restauradas em 20% da área de cada propriedade rural, podem potencializar a eficácia da conservação já exercida pelas Áreas de Preservação Permanente, se forem estrategicamente planejadas, buscando restabelecer a conexão entre as poucas áreas naturais remanescentes, criando uma rede entre bacias hidrográficas e, em algumas regiões ecotonais, até mesmo entre biomas distintos.

A formação de corredores em paisagens totalmente desmatadas dependerá, sempre, da existência de sementes e mudas das espécies que compunham a vegetação a restaurar e, também, do desenvolvimento de técnicas eficazes de restauração.

Para florestas, de modo geral, já existe um grande número de exemplos bem sucedidos, com plantios resultando em florestas estruturalmente bem formadas e com alta diversidade, ainda que espécies raras ou ameaçadas não estejam sendo cultivadas.

Por outro lado, restaurar outros tipos de vegetação, como o cerrado, por meio de plantio, continua sendo um obstáculo quase intransponível.

Felizmente, na maioria das regiões de cerrado, especialmente aquelas que foram utilizadas apenas para pecuária ou silvicultura, as estruturas subterrâneas das plantas (raízes, tubérculos, xilopódios) não foram totalmente destruídas, podendo, a vegetação, regenerar-se naturalmente, sem nenhuma intervenção, que não seja a eliminação das perturbações (espécies exóticas, gado, fogo, corte, etc.).

Para a recuperação da vegetação em áreas de reserva legal no Estado de São Paulo, as normas recentemente instituídas (Decreto n° 50.889, de 16 de junho de 2006) admitem até a utilização de espécies exóticas, com a função de pioneiras, mediante projeto aprovado pelo órgão licenciador.

Ainda que essa possibilidade não seja vista com bons olhos por parte dos ambientalistas, pesquisas recentes, em diferentes regiões do Brasil e em outros países tropicais, demonstram que, ao oferecer abrigo e, às vezes, alimento para a fauna, restabelecendo a deposição de matéria orgânica e a ciclagem de nutrientes, as árvores exóticas facilitam os processos naturais de regeneração das plantas nativas.

O resultado, a longo prazo, após a completa eliminação das exóticas, pode ser uma vegetação ainda mais semelhante à original do que a que se conseguiria com plantios heterogêneos de essências nativas. A eficácia dos corredores para garantir a troca de material genético entre seres vivos, isolados pela fragmentação, ainda carece de comprovação científica.

Todavia, os conhecimentos teóricos e empíricos já existentes indicam este caminho como sendo o de êxito mais provável. Mesmo que a esperada troca gênica não aconteça na proporção em que se espera, os ganhos em ampliação de habitat e melhoria da paisagem são inegáveis e, por si só, justificam a escolha desse caminho para a conservação da diversidade biológica, em paisagens fragmentadas.

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