quinta-feira, 5 de março de 2009

Catia Nunes da Cunha - O modelo sustentado deve ser prioridade, frente a qualquer modelo de recuperação

Mar-Mai 2007

O modelo sustentado deve ser prioridade, frente a qualquer modelo de recuperação
Catia Nunes da Cunha
Professora de Ecologia da Vegetação da UF-MT

007-14

Para se tratar de restauração de floresta no Norte do Pantanal tem que se considerar alguns aspectos básicos do ecossistema. Primeiro devemos considerar a natureza da vegetação que, por causa da sua posição fitogeográfica estratégica, o coloca em contato com diferentes tipos de vegetação circundante, ressaltando-se a predominância do Bioma Savana (cerrado), que ocupa cerca de 70% da área total.

Outros 30% são cobertos por diferentes tipos de florestas, desde Floresta seca, até Floresta sazonalmente inundável. A vegetação lenhosa mostra representantes do Cerrado, Floresta da Amazônica, Chaco e Floresta seca Chiquitan.

Isto mostra porquê o Pantanal tem uma alta diversidade de espécies arbóreas, apesar de possuir uma área relativamente pequena, ocupada por formações florestais. O mosaico de pequena escala, de diferentes tipos de florestas no Pantanal norte, dificulta o seu manejo, porque interferências, em média escala, podem eliminar completamente tipos florestais específicos.

Nunes da Cunha & Junk in press, em análise preliminar, determinou 19 tipos de formações lenhosas para o Pantanal. Este número baseia-se em fisionomias e certamente será aumentado, quando o Pantanal for analisado em maior detalhe. Uma classificação, com base fitossociológica, irá detalhar ainda mais esta análise, o que evidenciará a complexidade das formações florestais, neste ecossistema.

Esta complexidade está intimamente ligada ao ciclo hidrológico, onde poucos decímetros de altura do relevo resultam em períodos de semanas ou até meses de estresse de inundação ou de seca adicional. Além disso, mudanças na qualidade de solo têm impactos fundamentais sobre a cobertura vegetal, tanto a respeito do nível de nutrientes, quanto à retenção de água no solo.

A diversidade de florestas aumenta consideravelmente a diversidade de habitats no Pantanal, que devem ser conservados para manterem a diversidade de espécies de plantas e animais, que é um dos destaques desta região.

Florestas em habitats chaves, como capão, levees, landis e cordilheiras, deveriam ser estritamente protegidos. Nos últimos anos, a intensa procura de áreas no Pantanal para criação de gado resultou em destruição destes habitats florestados, principalmente na borda da planície pantaneira.

A recuperação de áreas desmatadas é difícil e, em casos necessários de recomposição da vegetação, deveria utilizar a sucessão natural, para recuperar as comunidades naturais, isto por falta de conhecimento científico no processo de restauração.

A baixa fertilidade dos solos e o estresse hídrico resultam em crescimento de árvores relativamente devagar neste ecossistema, por isso o Pantanal não pode ser considerado uma área de produção de massa de madeira, seja através de florestas naturais ou de plantios.

Por outro lado, o tipo e o tamanho das florestas da planície do Pantanal, que estão sujeitos à variação plurianual, deixam espaço para métodos de manejo sustentável, como pode ser demonstrado no exemplo do cambarazal, floresta dominadas por Vochysia divergens.

Esta espécie é higrófila e é favorecida pelos períodos plurianuais de inundação, como o que ocorreu nos últimos 30 anos. Por isso, invadiu as pastagens nativas, criando problemas para os fazendeiros, pela diminuição dos campos para o gado. As maiores comunidades de cambará estão nos pantanais de Barão de Melgaço (9,3%), Poconé (6,4%) e Paraguai (5,7%), perfazendo 3,1% da vegetação do Pantanal.

O processo da expansão do cambarazal, durante os períodos plurianuais de enchente, será, certamente, invertido na próxima fase plurianual de secas, porque o cambará é sensível à seca e ao fogo.

Durante o período de seca, a produção de sementes do cambará cai dramaticamente, enquanto que a predação de sementes por animais, exemplo pássaros e insetos, continua alta. Isso reduz a capacidade de estabelecimento de plantas jovens desta espécie, neste período.

Além disso, o fogo destrói plântulas e indivíduos jovens, invadindo até as bordas dos cambarazais densos. A reação do cambará à épocas plurianuais de secas e enchentes favorece o seu manejo, através de limpeza de campo. Este manejo deveria ser realizado somente em áreas onde se concentra cambarazais relativamente jovens e que serão, provavelmente, eliminados na próxima seca plurianual.

Limpeza de campo controlada nestas áreas significa colocar à disposição madeiras que podem ser usadas para fins comerciais. No entanto, falta inovação tecnológica para uso adequado deste recurso normalmente desperdiçado, não só por causa dos argumentos econômicos, mas também como modesta contribuição para o equilíbrio do balanço global de carbono. É claro que as áreas passíveis de limpeza de campo devem seguir as recomendações previstas na legislação.

O cambará tem um aumento de diâmetro de cerca de 1,5 cm por ano, o que significa que florestas com árvores de até 50 cm de diâmetro foram formadas durante o último período plurianual de enchentes. Em florestas maduras podem ocorrer indivíduos com idade de até 120 anos e com altura de até 30 metros.

Neste caso, eu recomendo que estas florestas maduras devam ser protegidas, por serem refúgios da vida silvestre, e representam centros de matrizes para dispersão do cambará e de espécies associadas, após épocas desfavoráveis de grandes estresses, por secas plurianuais.

O meu depoimento sobre a situação das florestas do Pantanal mostra que, por causa da grande diversidade de espécies lenhosas e da grande diversidade de comunidades florestais, o manejo sustentado deveria ser prioridade, frente a qualquer modelo de recuperação. Isto porque, neste complexo mosaico de escala pequena de florestas, a restauração sempre será mais cara, em comparação ao manejo sustentável, e não podemos arriscar possibilidades de perdas irrecuperáveis.

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